| John: | - What brings you here, my fair lady? É a melodia dos sonhos ou o pesadelo da realidade? |
|---|---|
| Enloya: | – Meus ensinamentos dispensam sonhos, caro fantasma. Entretanto, temo que os pesadelos insistam em me visitar, talvez me amem mais do que os anseio junto a mim. Assim como o senhor, ghost, és mais um de meus errôneos devaneios, ou realmente está a quebrar as regras do sono impostas por estes mortais que nos rodeiam? |
| John: | - Ora, my fair lady. Me disse que seus ensinamentos dispensam sonhos, mas como é possível dispensar tal coisa? Veja bem... Talvez, então, eu seja um de seus devaneios e aquele que está quebrando as regras que está aqui. Ou talvez... Eu seja, assim como me chama, apenas um fantasma. Como, entretanto, poderei provar, sem que você se permita me tocar? Como saberá se simplesmente sou real sem nem tentar? |
| Enloya: | - My dear ghost, como posso eu, sem nunca ter tocado fantasma ou homem, saber se és realmente o que penso? Mesmo se formos feitos da mesma matéria, ainda seríamos como o vento e a carne. Você passaria entre meu ser, belo e invisível e jamais poderia tocar-me realmente, ou sentir minha pele. Enquanto eu, por mais que tentasse tocar-lhe a mão, apenas para me certificar se és ou não real, mesmo meus dedos ágeis não seriam capazes de vos sentir. |
| John: | - Sou o vento. Você é a carne. Mas, muito se engana no não sentir. O vento nos toca. Nos acaricia e nos consume. Nos envolve e nos carrega. Não o vemos, mas sentimos. Cada toque. Cada beijo, cada abraçar. Assim sendo, o que temes? Se do vento já recebe carícias? E, afinal, por que não deveria? |
Todos os cães merecem o céu
Quando eu era menor, com seis ou sete anos, talvez (não sou boa em datar lembranças), gostava de pensar que existia um céu para todas as criaturas existentes do planeta. Em especial, imaginava que houvesse um paraíso astral para cães. Pois é, cachorros…
Tenho alergia ao pelo deles, espirrava como louca nessa época apenas de estar no mesmo ambiente que um pequeno canino. Entretanto, nada me impedia de ficar fascinada com cada abanadinha de rabo, cara carinha de pidão, cada coçada de orelha… Seja pulguento, magrelo, sardento, sem graça, nada disso importava, eram todos lindos perante meus olhos inocentes.
Bolinha, Rupert, Jack, Yago, Frederick, Freddie, Miriam, Prenda, Brenda… Perdi a conta de quantos nomes usei para batizar os inúmeros moradores de rua de quatro patas. Sim, acreditem, eu passava metade dos meus dias procurando animais abandonados para dar-lhes nome, carinho e muitas vezes até comida.
Eu citei um céu para esses animais mais acima, de fato, cachorros sempre me pareceram tão puros, verdadeiros e leais que eu, jamais, pensaria que, como dizem os especialistas, estes seres não tem alma. Vou explicar-lhes o por que.
Eu, hoje em dia, sou dona de um serzinho muito especial chamado: Emma Lahanna. O nome foi dado a essa linda poodle toy em homenagem a atriz que interpretava a Power ranger amarela. Eu tinha onze anos quando a ganhei, então, por favor, desconsiderem. Porém, nós a chamamos de Lanna. Ela vai fazer seis anos em maior e cada vez que o tempo passa mais e mais depressa eu sinto, bem aqui dentro, que a estou perdendo.
Nunca fui uma criança popular, bullying é clichê, banal, atualmente, eu era apenas diferente e garanto que não virei nenhuma assassina por causa disso. Anyway, quando a Lanna chegou, eu era uma pessoa que já, mesmo tão precocemente, estava acomodada a solidão, sou filha única e meus pais sempre trabalharam por longos períodos. Na época, ela era uma bolinha cor de champagne e enormes olhos avelãs, iguais aos meus. Dormia em cima de uma almofada em formado de coração que não era maior do que um prato de sopa, e acreditem, ainda sobrava espaço.
Quando eu chorava, ela deitava perto e me olhava com aqueles orbes brilhantes repletos de pena e carinho, quando eu dormia no sofá e deixava meu braço cair sem querer, ela empurrava minha mão com a cabeça pra que eu pudesse fazer carinho nela, quando eu dormia e fechava a porta do quarto, ela deitava com a cabecinha na porta e não deixava ninguém entrar, e quando eu não fechava, ela se escondia em baixo da minha cama, e o melhor de todos: Quando minha mãe gritava comigo, ela me defendia latindo alto, valente, como eu nunca consegui ser.
Em algum tempo eu terminarei a faculdade, irei para outro lugar, arrumarei um emprego e seguirei minha vida, mas a Lanna, eu sei que estará comigo em todos os momentos, enquanto a sua infelizmente curta existência permitir. E eu quero acordar, todos os dias, e olhar para baixo para encontrar a minha princesa sentadinha, esperando eu me levantar sem fazer qualquer ruído, com medo de me acordar.
Me diga você agora: Uma criatura assim, não vai para o céu?
| Trevor: | Por que você tem medo de borboletas? |
|---|---|
| Anne: | Porque elas não vivem mais do que 24 horas. |
| Trevor: | E o que isso a ver? |
| Anne: | As vezes imagino que as pessoas são como borboletas. Se você fosse uma, eu teria de aguentar saber que te terei num dia e no outro não mais. |
| Trevor: | Mas não é assim que as coisas funcionam? |
| Anne: | Talvez, mas eu prefiro acreditar que vai ficar comigo pra sempre. |
Have you Ever seen the rain?
Ela odiava as manhãs. À medida que o despertador tiquetaqueava irritante ao seu lado, o corpo alvo se contorcia preguiçosamente debaixo dos cobertores. Estava frio lá fora, mas ela permanecia quente, talvez com a mesma ilusão de calor que só um abraço proporcionaria.
Os olhos cor de âmbar remexiam sob as pálpebras apertadas pela poeira do sono, no entanto, não fora preciso muito mais do que três piscadelas ágeis para escancará-los completamente.
Era cedo, pouco mais do que cinco e meia e ela sentia como estivesse dormindo durante séculos. Voltou seus orbes amarelos para a janela, a cortina estava aberta, como sempre, e o vento entrava sem piedade trazendo o frescor das coisas sem vida lá fora.
O dia amanheceu cinza, típico do solstício de inverno que se mantinha glorioso lá fora. Chovia.
No mural, fotos de uma realidade alternativa, outra vida da qual não fazia mais parte. Sorrisos perfeitos, rostos abrilhantados, cabelos ao vento, beijos de boa noite, olhos azuis. Não lhe cabia um nome, uma voz, um toque, um gesto, apenas uma palavra poderia definir quem ele era: Morte.
Ela jamais aceitou e estava fadada a percorrer todos os caminhos tortuosos da vida em busca de uma razão, um por quê, um sentido que o fizera deixá-la assim, só. –Maldito anjo negro! – A jovem repetia enquanto vagarosamente movia o corpinho já pálido e desprovido de vida até a pequena penteadeira no centro do aposento. Escondia-se com maquiagem no espelho, dizia a si mesma que um dia a dor cessaria e tudo ficaria bem. Mas era mentira. Na gaveta, um frasco azul. Bonito, tentador, vistoso, transparente e mortal. De todas as coisas que já tivera vontade de fazer, esta, com certeza era a mais cruel e desesperadoramente necessária do que qualquer outra. Na superfície refletidoratambém havia retratos, a mesma face, os mesmos orbes cor de safira tais como o liquido dançante dentro do vidro que jazia agora em suas mãos.
Os olhos cor de âmbar a pouco despertados marejavam enquanto passeavam ágeis pelas fotografias. Eram memórias, eram lembranças, eram pedaços de uma jovem que estava partida ao meio. Era sofrível.
Desenroscou a rolha do pequeno objeto e sem demora lançou o conteúdo contra os lábios abertos. Talvez fosse normal sentir medo nesse tipo de situação, acabar com a dor por mais tentador que fosse, ainda era perturbador. Estremeceu. Cada centímetro do corpo paralisado em um transe mágico que poderia muito bem ter sido tirado de um conto de Shakespeare.
Ela esfregou os dedos dos pés, notando que ainda podia andar, que os sentidos ainda funcionavam e que por mais estranho que parecesse, podia pensar. Tocou o chão com os pés gelados como os de um cadáver. Não havia vida, não havia sangue, não havia calor e nem culpa. Constante e inabalável, curada ela estava enquanto passo a passo se aproximava da janela. Quando muito perto estava, observou o rostinho de alabastro refletir no vitral, as cores haviam desaparecido assim como o inverno finalmente chegara lá fora.
As gotículas mornas lhe causavam a engraçada sensação de estar tomando uma ducha quente. Partícula por partícula elas caiam-lhe sobre a face lavando sua alma e seu corpo. – O que está fazendo ai dentro? – A suave voz do anjo negro rasgou-lhe os tímpanos e voltou sua atenção para a figura que completamente encharcada da tempestade, permanecia parado diante dela.
-Eu não quero sair… Estou com medo. – Não era mentira. A suave menção de estar deixando a vida pode parecer um pouco amedrontadora, não acha?
-Medo da chuva? – O sorriso branco, perolado se abriu para ela, como um abraço de mãe se abre para um filho. Estava segura, podia ir para fora que nada lhe aconteceria.
Perna por perna, passo por passo se aproximou e ao invés de uma sombra escura encontrou a mão alva estendida para ela. Já havia se esquecido do quanto era quente, do quanto aquela pele era macia e acolhedora.
Por fim, despejou o corpo sobre sua pequena não tão falsa ilusão. Alguns segundos apertados em carinho e abraços foram mais do que suficientes para ter a certeza de que não havia coisa alguma capaz de tirá-lo de suas mãos agora.
O brilho dos orbes de safira lhe envolveram com sua luz, um contraste que estaria a salvo para sempre. Castanho no Azul por toda a eternidade. Cerrou os olhos e então a chuva parou.
Beautiful Nightmare.
Longas caminhadas silenciosas nunca foram meu forte. Pra ser bem sincera, não deveria ter nascido um ser que gostasse mais de falar e principalmente de ser ouvida do que minha ilustre personalidade.
Lápides, esculturas góticas cobertas por hera de todas as formas e tamanhos. Morto, tudo morto. Lembranças assassinadas, velhos hábitos estuprados por outros mais eficientes, felicidades estranguladas, amores envenenados. Nada cresce onde o fim existe. Ele é o fim da linha, o ponto final. Mais uma vez estava ali, contemplando o túmulo de mármore cuja tampa era guardada por um enorme anjo de alabastro que nos braços erguia uma espada cintilante. “Odette Walsh”, nove anos, cabelos loiros e brilhantes, esmeraldas faiscantes no lugar dos olhos e uma vida inteira pela frente, ou quase. Eu e a outra costumavamos brincar a beira do rio, conversando com as ninfas, ajudando os bichinhos a conseguir comida e abrigo, caçando Leprechauns… São tempos que não retornarão jamais. Por quê? Existe algo que se chama Pneumonia. Banal, de certo. Mas não para pessoas que vivem numa comunidade isolada nos confins da Irlanda. Foi assim que eu perdi minha melhor amiga dos tempos infantis, a única que tive na vida.
Queria mesmo ter que sempre ilustrar uma menina rebelde, problemática, cheia de traumas passados, com motivos para ser cruel e maligna, no entanto,ao invés disso fui designada ao encontro de uma garota um tanto feliz, mas nada comum. Eu posso ver como se debate na cama, perdida em sono profundo, num mundo talvez mais extraordinário e assustador do que a própria vida. Havia sol e calor, muito calor. Mesmo sonhando podia sentir o rosto quase derreter com as gotículas que escorriam por todo este. Na minha frente um casal se abraçava amorosamente, e ao me aproximar, percebi que eram tão jovens quanto eu, talvez uns anos apenas mais velhos. O reluzir dourado fez com que meu coração se contorcesse com a lembrança de Odette, minha melhor amiga que falecera poucos anos atrás. Os fios amarelos, tão louros que pareciam grandes linhas de ouro puro, caiam perfeitamente na medida em que os dedos ágeis do menino os alisavam carinhosamente. Aproximei-me mais e fiquei espantada com o foco de minha visão. Impossível! Will era o jovem que abraçava Odette, tão romântico, tão apaixonadamente… Mas não! Não estava certo! A Loira e o outro também loiro se beijavam e acariciavam bem em frente a mim. Aqueles que antes se suportavam apenas na presença de minha pessoa na verdade tinham um romance secreto que eu jamais descobrira, até agora. Aqueles olhos verdes, como os campos de Cashel no verão, aquele cabelo loiro queimado totalmente liso e bagunçado e o corpo bronzeado levemente definido que antes apenas se voltava para mim, agora cobria outra. Fora enganada e só depois de tanto tempo desde que Odette se fora… Meus sonhos lhe revelaram a verdade.
Fúria. Um redemoinho de emoções submersas no interior de um corpo alvo ainda pouco acordado, meio molenga sob a quentura múltipla dos cobertores brancos que trouxera numa grande e única mala direto de Cashel. Estivera pensando em minha terra natal durante muito tempo de meus dias ultimamente. Talvez fosse o sonho que tive com Will, meu melhor amigo e Odette, falecida companheira inseparável. Podia ouvir os beijos dos pombinhos agarrados um contra o outro como se pertencessem a um só ser. Ainda podia ver o brilho nos olhos do loiro quando se separavam, o sorriso deslumbrante de Odette hipnotizar os orbes verdes dele contra o semblante da loira. Traição. A pior experiência pela qual um animal racional pode passar em sua tortuosa existência. Estaria eu, uma pequena criaturinha nobre de onze anos sendo lançada ao mar dos conflitos adolescentes já tão cedo? Ainda ontem lia livros sobre contos de fadas, e agora caia aos prantos por um devaneio noturno que ainda rasgava cada neurônio que possuía. Sim, eu chorava, sentada à beira de minha cama, meu leito, confidente mais amável e aconchegante, com as mãos cobrindo os orbes de safira não tão faiscantes como de costume, deixando soluços cortarem o silencio do dormitório enquanto os lábios aveludados dignos de uma rosa silvestre se comprimiam numa fina linha tentando inutilmente impedi-los de chegarem aos ouvidos alheios. Seria de fato uma sentença de humilhação para o resto de sua estadia no centro do inferno, que era como chamava a extraordinária vida que recebera, e também um prato cheio para todas as víboras sedentas por polêmicas e ultrajes que as fizesse progredir socialmente.Patético.



